Até onde vai a representatividade?


Há alguns dias, nas eternas andanças pelas redes sociais, deparei-me com uma publicação que passaria totalmente ignorada por muitas pessoas. Mas não foi. No vídeo de trinta a quarenta segundos, se não me engano, um cantor gospel convidava seus seguidores a comparecerem num congresso ou algo do tipo, mas o que chamava a atenção de milhares de pessoas não era o que ele falava, e sim como ele era. Melhor dizendo, o formato que sua cabeça tinha. Não tardou para a zoeira ser geral, com montagens e comentários associando sua cabeça a de uma peça Lego, por exemplo.

E isso trouxe à tona algumas coisas.

Primeiro, foi meio inevitável não lembrar dos "circos dos horrores", que expunha seres humanos deficientes como aberrações, anormalidades. Com a era digital a toda velocidade, o circo se arma em qualquer lugar, as ditas aberrações podem ser aquele garoto orelhudo, a menina de sobrancelhas grossas, a gorda que tem vida sexual ativa, o negro que namora uma branca, o homem com cabeça quadrada... e tudo custando o valor que se paga na mensalidade ou plano de dados de Internet.

Segundo, lembrei-me de dois fatos de minha infância e adolescência.

Um é sobre uma garota que conheci no Ensino Fundamental, quando eu cursava a sexta série (se não me engano, atualmente é o equivalente ao sétimo ano). Ela possuía fissura labiopalatal, o que a tornava, para a maioria das pessoas, uma aberração. Um simples detalhe, que pode incomodar inicialmente, é verdade, era o bastante para que definissem tudo sobre ela. Era comum ouvir que "ela até tem um corpo bonito, mas o que estraga é a cara" (vale ressaltar que, no contexto da época, a faixa etária dos estudantes do colégio era de 12 a 16 anos, então não é incomum rolar comentários sexuais entre adolescentes, moralistas). Eu não me intimidei com sua aparência ou o que diziam sobre ela, e tive uma amizade colegial muito bacana com essa garota, descobrindo gostos em comum, rindo de besteiras e descobrindo como o preconceito chegava a incomodar e como ela possuía expectativas maravilhosas sobre o que queria para o futuro. Infelizmente, não me recordo o nome dela, mas tenho certeza que, neste momento, ela esteja feliz da forma que escolheu ser (numa de nossas conversas, ela me contou que faria uma cirurgia para corrigir o defeito labial assim que tivesse 18 anos).

E o outro é sobre mim. Desde criança, e até agora, eu sempre tive imensa dificuldade em conseguir ganhar massa muscular, peso, o que seja. Magro, magérrimo. E com a cabeça um pouco desproporcional ao corpo ainda por cima. Apelidos maldosos rolavam aos montes. Piorava ainda mais por eu nunca ser fã de esportes. Os efeitos, na adolescência, foram autoestima quase zerada, dificuldades de me relacionar amorosamente com alguém, por me achar inferior, abaixo do mínimo esperado. Embora, hoje, eu esteja mais confiante quanto a alguns aspectos, resquícios de anos e anos de inferiorização insistem em continuar em mim.

E terceiro, se tanto se fala em representatividade, onde estão os personagens (perdoem-me se não for o termo correto!) com necessidades especiais? Onde estão os cegos, os surdos, os mudos, os cadeirantes, os com alguma deformação física, os autistas e tantos outros? Até onde a representatividade que tanto se prega vai, pode ir ou deveria ir?

Dos vários livros que li, encontrei poucos personagens baianos que não fossem estereótipos ridículos. Pouquíssimos garotos magros que me identificassem. E mais raro ainda foram os gagos (sim, eu era gago quando criança e ainda hoje possuo lapsos quando nervoso ou emocionalmente abalado).

Não estou dizendo que o autor é obrigado a incluir personagens para representar minorias, e sim por que quase nunca vejo se falando sobre eles. É comum se falar (e muito) de personagens negros, mulheres fortes, LGBTs, etnias diversas... mas onde está o olhar para o que ainda hoje é considerado anomal?

E essa é até uma cobrança que me fiz anos atrás, e cuidei de corrigi-la ao longo dos anos.

Se não começarmos a incluir o todo na equação, só vamos permitir que mais pessoas sejam ofendidas diariamente por suas peculiaridades, garantindo a continuidade do circo dos horrores nas redes sociais, sob o disfarce uma simples zoeira, uma brincadeira boba, mas que destrói autoestima e, infelizmente, pode matar.

NOTA: Escolhi ilustrar esta postagem com uma imagem do filme O Lar das Crianças Peculiares, baseado no livro de mesmo nome, justamente por ser uma das poucas obras atuais a mostrar o diferente e humanizá-lo, ainda sob o teor fantástico.

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