[Conto] Rube e o Livro das Páginas em Branco

Bem, antes de mais nada, este conto é o quarto da série protagonizada por Rube, a esperta menina de seis ou sete anos que é amiga de um rato falante, um coelho de pelúcia que esconde segredos sobre sua verdadeira identidade e outras criaturas fantásticas. Então, é um presente para quem gostou de Rube, conto escrito e publicado em 2015, e suas duas sequências, Rube e o Leão Azul e Um novo amigo para Rube, ambos de 2016.

É um conto curtinho (e me perdoem os erros gramaticais eventuais, prometo eliminá-los quando lançar a versão e-book), para celebrar o Dia do Leitor. Inédito até há pouco, escrito hoje, no dia 7 de janeiro, numa tarde quente na Bahia.

Enfim, boa leitura a todos. E até o próximo conto de minha filha literária.

The Old Man and the Sea Book Sculpture by wetcanvas

Rube adorava ir na livraria. Mais do que ir numa biblioteca pública, nas vezes que o papai não encontrava o que precisava nos livros que tinha em casa. A menina aprendeu desde cedo que as informações mais confiáveis estavam em livros, e não em sites. Recentemente, contudo, Radolfo, o rato bilíngue, que começava a aprender a ler as histórias que guardava em seu ofício de Guardião das Letras, explicou que até os livros possuíam mentiras maiores do que a ficção.
Independente de os livros serem totalmente confiáveis ou não, ela os adorava. Enquanto o pai procurava novos títulos para acrescentar ao acervo particular, Rube passeava pelos corredores, maravilhada com cada capa, volume e possível história contida em suas páginas. Ia abraçada ao Sr. Coelho, seu inseparável amigo e protetor, os olhos percorrendo cada estante, cada prateleira, cada cantinho. Embora quisesse levar dezenas ou centenas de livros a cada visita, acabava escolhendo menos de seis, pensando em momentos em suas escolhas: os que ela leria para os amigos fabulosos, os que pediria para a mamãe ou o papai ler e os que leria apenas para si.
Naquela manhã, não era muito diferente das outras vezes.
As maiores diferenças eram que o pai não estava muito interessado em ficção, e sim em livros de psicologia e medicina, e Rube pretendia pegar mais livros para leituras em conjunto.
— Pode escolher à vontade, filha — disse ele, sorrindo. — Talvez tenha alguns livros de colorir também que você goste.
A filha assentiu. Ela não estava muito interessada em livrinhos de colorir, apesar de adorar desenhar e pintar; talvez pegaria um, mas não estava certa quanto a isso. Abraçada ao coelho de pelúcia, iniciou sua jornada.
— Acho que vou levar algum livro sobre gatinhos — disse Rube, lembrando-se do novo amigo, que naquela hora deveria estar fazendo companhia para a mamãe.
— Radolfo ficará enciumado — sussurrou Sr. Coelho, permanecendo imóvel.
— Não há muitos livros sobre ratos atualmente. Ele vai ter que se contentar com queijos e as fábulas. Além do mais, ele já leu as histórias de Nárnia e me disse que nenhum rato ou camundongo supera aquele lá... que esqueci o nome.
Não fazia três semanas que o gatinho encontrado no quintal estava morando com a família de Rube. Era travesso, curioso e muito carinhoso, características que despertaram imenso amor por ele. A mamãe foi quem mais se apegou, e parecia que o animal a preferia mais do que os demais. Nas horas que ficava com a menina, contudo, não era comum o rato falante se sentir incomodado, numa clara demonstração de ciúmes, afinal a criança era sua única amiga humana.
— Filho, escolhe qualquer livro! — pedia uma mulher impaciente, enquanto um menino que parecia mais velho que Rube olhava para uma variedade de livros sobre Pokémon. — É tudo igual mesmo!
A menina ignorou a cena e continuou escolhendo os títulos que queria: pegou um enorme e fino livro com ilustrações em aquarela de gatos do mundo todo; depois, por pura sorte, achou um livreto com histórias curtas sobre ratos e coelhos, o que deixaria os dois amigos falantes muito contentes; e estava para se decidir quanto a uma pequena enciclopédia de lendas nórdicas e uma coletânea de contos folclóricos do Brasil quando ouviu um rapaz falando no celular.
— Sim, amor, estou olhando para algo que sei que vai gostar muito — dizia todo animado. — Não, não é isso. É melhor...
Rube espiou rapidinho, e viu a coleção completa de Harry Potter. Não apenas os sete livros com as capas iguais as que a mamãe tinha, e sim dez ou onze, mais do que a menina sabia existir, e com capas diferentes, mais modernas — lindas, mas não as preferidas da criança.
— Vou levar o de contos — decidiu-se, pegando o livro e continuando o passeio pela livraria.
Vislumbrou o pai lendo a contracapa de um livro, com a expressão séria.
— Papai quer mesmo ajudar a mamãe — comentou para o Sr. Coelho.
— Assim como você — replicou o animal felpudo, num sussurro.
Rube concordou, recordando-se da maravilhosa jornada entre os livros, realizada poucos meses atrás. Havia encontrado uma resposta para o que procurava, mas ainda estava tentando compreendê-la. Fadas adoravam esses enigmas, segundo explicou Radolfo.
— Acho que vou levar só esses mesmo — falou ela, dando uma última olhada ao redor. — Já tenho muita coisa para ler também.
— Sem livros de colorir hoje?
— Não.
— Quadrinhos?
— Também não.
— Aquele garoto ainda não escolheu o livro de Pokémon...
Rube se virou para olhar.
A mãe do menino estava impaciente e ameaçava ou pegar qualquer um ou levar nenhum. Talvez tivesse algum compromisso e a demora do filho a atrasasse. Ou só não tinha paciência de esperar mesmo.
— Oi — falou a pequena Rube, parando ao lado do garoto e olhando as capas com a estampa “Pokémon” enorme em todas elas.
O menino não respondeu.
— Sabe, eu sei que são muitos livros e a gente fica na dúvida, mas eu costumo seguir uma estratégia bem simples na escolha — ela continuou, com simplicidade.
— Qual? — perguntou ele, demonstrando interesse.
— Deixo o livro me escolher.
— Como assim?
A mulher também parecia surpresa, mas permaneceu quieta.
— Geralmente eu escolho pela história, mas quando fico em dúvida, apenas deixo que o acaso decida qual vou levar — respondeu Rube, sorrindo. — Foi assim que escolhi um livro hoje.
Ela poderia falar mais, pois, se havia uma coisa que a menina sabia era sobre livros. Aprendeu muito com os pais, que sempre a incentivaram na leitura, e ainda mais com Radolfo, que falava sobre os Guardiões das Letras e suas funções para preservar os mundos literários. Sabia ouvir as canções que as letras emitiam, um convite para que alguém abrisse os livros; e era isso que tentava dizer, mas sem soar fantasioso demais. O livro certo atrairia o leitor certo.
— Tenta! — pediu ela, fitando o garoto espantado.
— Rube, hora de irmos, filha — soou a voz do pai, aproximando-se.
Rube pediu licença e se despediu do menino e da mulher.
Quando esperava o pai pagar pelos livros escolhidos, ficou contente ao ver o garoto segurando um livro ao lado da mãe, que parecia menos impaciente do que minutos atrás. Ao notá-la, ele sorriu com sinceridade e agradeceu com um aceno leve.
Mais tarde, ela contou ao Radolfo sobre o que fez e como estava começando a entender sobre a magia que emanava dos livros; e como cada livro, mesmo os que ela não gostava, tinha um leitor à sua espera.
— Pessoas são livros em branco, Rube — filosofou o rato branco, comendo um pedaço de queijo —, e várias delas são preenchidas por leituras. Você, contudo, tem sorte de ter mais páginas escritas do que a maioria.
Rube não entendeu, mas não se importou.
Estava animada com o retorno das leituras dominicais, já que a mamãe estava começando a melhorar do longo período de desânimo.

0 comentários:

Postar um comentário