[Fanfiction] Bruny Guedes



— Como é que é?
Ela ainda não acreditava nas exatas palavras proferidas pela coruja.
Na verdade, não acreditava que acabara de ouvir uma coruja falar, e não piar, e que ela dissera aquilo.
Era uma manhã fria. Foi uma luta terrível para sair da cama, arrastando as cobertas, os pés ainda aquecidos pelas meias em contato com o chão gelado, e ir à cozinha pegar uma caneca de café. Ao voltar, ali estava a coruja, no limiar da janela, entre o quarto que perdia a gostosa temperatura do conforto e a rua movimentada, apesar do clima invernal.
— Você ouviu o que eu disse — respondeu o animal, impassível.
— Sim, eu ouvi você.
— Então por que me pergunta o que eu acabei de falar?
— Bem — começou a garota, sentando-se na beirada da cama, o cheiro do café a despertando aos pouquinhos —, corujas não deveriam falar.
A ave continuou impassível, até mais do que o normal, e a carta ainda sob as patas.
— É sério isso? — perguntou Bruny, após um gole generoso na bebida matinal. — Digo, Chapéu Seletor e tudo mais?
— Não é Hogwarts, você não é inglesa.
— Mas tem o Chapéu Seletor, não tem? Ainda é Grifinória e tudo mais?
— Não. E não. E talvez.
Ela bebeu mais um pouco de café, confusa.
— Então que caramba é o Castelobruxo?
A mensageira pareceu arfar.
— Uma escola de magia para jovens bruxos e bruxas nascidos nas Américas, como você. Fica na Amazônia. Tem caiporas protegendo a propriedade, a selva é mais perigosa do que a Floresta Proibida. E há aulas diferentes também.
— E sem Chapéu Seletor?
— Sem.
— E como escolhem as casas?
— Chá.
— Chá?!
— Sim, chá. Você beberá, terá uma visão e saberá para qual casa irá. Simples.
— Isso parece uma droga.
— É magia. Olha o respeito!
— Chá que causa alucinações é tudo, menos magia, Sra. Coruja.
— Edna.
— Hein?
— Meu nome. Edna.
Bruny suspirou. Talvez o café não fosse forte o bastante, e ela estivesse alucinando.
— E como irei para... Castelobruxo? Trem?
Edna, a coruja, piou alto. Deveria ser uma risada. Ou não. Como a garota jamais havia falado com uma coruja antes, achou que fosse um jeito de ela fazer zombaria. De todo modo, achou sinistro.
— Jangadas, milhares delas, conduzem todos os alunos para o Castelobruxo.
— Custos?
— Tudo pago pelo Ministério da Magia Americana.
— Tudo?
— Tudo, cada mínimo gasto.
Bruny sorriu. Já era melhor do que a educação normal.
— Então — disse, por fim —, eu só preciso pegar essa carta aí, assinar e pronto?
— Sim.
E ela o fez.
A coruja recolheu a carta assinada e saiu voando, desaparecendo entre o cinzento do céu, as penas brancas se perdendo no firmamento. Bruny, contudo, permaneceu na janela, contemplando o movimento da rua, pessoas indo e vindo apressadas, carros transitando... e começava a vislumbrar um mundo diferente, além do que conhecia.
Pensou no Castelobruxo, e foi estranho, pois mal sabia o que era e como era, mas imaginou-o majestoso no meio da floresta, com caiporas montados em furiosos javalis, alunos conversando durante os intervalos.
Magia.
Estremeceu com aquilo.
E sorriu.

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