Não devemos respeitar a literatura nacional como um todo

Dystopia por Michel Donze
Quem me conhece há algum tempo, sabe que tenho uma relação de amor e ódio pela literatura, sobretudo a que produzo e estou inserido por temas e gêneros. Se uma parte de mim se chateia com livros de ficção contemporânea, a outra sente prazer em descobrir obras clássicas e antigas, conhecer os autores que ingluenciaram ou inspiraram os que pouco me atraem. E se não sinto o menor interesse em ler histórias de literatura fantástica contemporânea, encho-me de prazer com contos folclóricos e contos de fadas, assim como sinto gosto pelas lendas e mitos de quaisquer povos do mundo.

Nunca me senti abraçado como membro da dita literatura nacional independente, uma vez que, por diversas experiências pessoais e alheias, aprendi que as coisas não funcionam exatamente como dizem funcionar. Com a mesma energia que abominei associações literárias, busquei ajudar e incentivar outros escritores, conform me foi possível.

Houve uma época que fui elitista e com discursos meritocráticos, afinal sempre possui um gosto mais refinado para leituras e consegui, através de longos anos de treinos e esforços, atingir um grau satisfatório como escritor.

Em outras palavras, sempre fui metamorfose ambulante e um pouco paradoxal em minha breve carreira como escritor.

Em tempos atuais, uma coisa que não fui em momento algum é desleal com aquilo que sempre defendi e acreditei ser o certo. Meu posicionamento contra preconceitos não é algo que sempre tive, uma vez que já soltei falas machistas e homofóbicas, porém a convivência, ainda que pouca, mostrou-se coisas que me fizeram mudar os pensamentos.

A coerência, portanto, mantém-se firme ao repudir toda e qualquer manifestação que fere os direitos humanos e a liberdade de expressão.

Tornou-se insustentável, para leitores, escritores e blogueiros, compactuar com campanhas que busquem valorizar uma literatura como um todo, uma vez que nela residem indivíduos que abraçam o autoritarismo, de ambos os lados, esquerda e direita; indivíduos que veem lutas contra qualquer forma de preconceito como vitimismo.

A literatura nacional é um conjunto de fragmentos, e não algo sólido. Defender algo assim é, a meu ver, impossível. Não adianta campanhas para lermos livros de autores racistas e homofóbicos, por exemplo, só porque eles são brasileiros. Não adianta mover céus e terras para lermos obras mal escritas e elogiá-las só porque são escritas por brasileiros.

É preciso admitir que nossa literatura ainda é um conjunto de fragmentos, de opiniões divergentes, de amadorismo defendido com unhas e dentes como autêntica qualidade e uma forma de estilo. Perdoa-se visões preconceituosas alegando eu-líricos, abraça-se assediadores por causa de seu vasto currículo, divulga-se histórias de relacionamentos abusivos pelo suposto empoderamente feminino, espalha-se aos ventos que qualquer forma de crítica é "recalque" e mimimi do politicamente correto.

Graças a coisas como as mencionadas acima, a literatura nacional independente afagou o neofascismo como um caminho para reerguer o mercado do livro. Há uma ilusória esperança de que haverá liberdade de expressão, de que não se rasgarão e queimarão livros, não ameaçarão editores e escritores contrários ao governo. Esquecem-se que escritores são artistas, um dos alvos de críticas de quem nada entende de Lei Rouanet.

Não tem como defender, valorizar ou respeitar uma literatura que acena para incendiários.

Restam a nós, contadores de histórias, seguirmos como pudermos. Restam a nós, leitores, apreciar individualmente cada artista que se opõe contra a histeria coletiva liderada por editores que pregam que promoções que barateiam os livros prejudicam o mercado.

E aguardar que, um dia, possamos todos respeitar a literatura como um todo, e não apenas os fragmentos diamantinos em meio a um conjunto cheio de caco de vidro.

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