Não troco o meu "oxente" pelo "cyberagreste" de ninguém!

Sou baiano. Talvez não tanto quanto deveria, uma vez que nasci em Morro do Chapéu e, aqui e ali, acompanhei meus pais por fazendas em diversos cantos.

Consigo lembrar de já ter morado no meio do nada, onde enormes e frondosas árvores cresciam ao redor de casa; lembro da casa de madeira, cujas janelas certa vez se abriram inexplicavelmente no meio da noite; minha mãe e eu acordamos ambos gritando; eu por causa de um pesadelo.

Lembro de correr por quintais e campos, de levar fivelada (daquelas bem grandes) na cabeça; fluiu muito sangue; não fui ao médico, pois era uma fazenda longe demais da cidade, mas fui cuidado em casa mesmo.

Conheci gente de diversos lugares do Brasil, ao mesmo tempo em que morei em cidades e fazendas de ao mesmo três diferentes estados (Bahia, Minas Gerais e Goiás). Homens adultos que relatavam invasão de lobisomem à oficina de ferramentas (e até marcas na parede tinha para provar). Relatos de livusias (assombrações das mais barulhentas e incômodas), de fantasma de virgem que bulinava com caminhoneiros, aparições de beira de rio...

Vi emas, jacarés, onças, saguis, seriemas, todo tipo de cobra (e escapei de ser picado por uma na biblioteca de uma escola rural), peixes e por aí vai.

Ah, meu pai, por sua vez, era vaqueiro. Usava chapéu de couro, ouvia músicas de vaquejada; uma vez ou duas fui ao rodeio com ele. A fazenda de meus avós paternos era situada entre serras; Ave-Maria no rádio às seis da tarde, mosquitos, pernilongos e mutucas faziam companhia aos grilos e vagalumes. À noite, sob os candeeiros à querosene ou à gás, as sombras das colinas e seus mistérios nos engoliam.

São lembranças que me veem á mente quando penso que sou, sim, nordestino. É isso que meu Nordeste é: um fragmento que milhares de outras pessoas conhecem também, pois se situa no cerrado e na região da Chapada Diamantina. São elementos que estão, por exemplo, presentes num dos contos da novela O Cão Negro, a ser lançada, agora em edição física, ainda este ano; e estão inteiramente recorrentes em A Livusia, que escrevi em parceria com Bruny Guedes, e também tem editora.

O Fantasma de Lampião by Alexandre Fiuza
Há outros Nordestes por aí, e Alan de Sá, no ensaio Estão inventando o Nordeste. De novo, apresenta outros fragmentos. Ele, por exemplo, está na região de Feira de Santana e tem elementos completamente diferentes do que eu conheço como Bahia/Nordeste.

E essa pluralidade nordestina é uma coisa linda e rica. Como pesquisador de símbolos e folclore, eu adoro conhecer aspectos regionais, aprender sobre mitos e lendas de determinado local, ou como uma lenda é contada e recontada de maneiras diferentes. Isso é de uma beleza que não tem preço.

Então, não espere de minha parte a aceitação da abominação chamada cyberagreste, pois ela só pega aquilo de negativo e estereotipado e glorifica. E ofende. Se um nordestino não se sente ofendido em ver sua região reduzida à "Eterna Seca" e "androides e ginoides resgatando o visual de cangaceiros" por acharem símbolos do Nordeste, apenas lamento. De verdade.

Dependendo do estado e/ou da região, há detalhes particulares e peculiares para se trabalhar. Você encontra a menção á figura do cangaceiro na literatura de cordel (a qual eu me aventurei este ano, com um texto falando sobre Pedro Malasartes). Pode parecer estranho aos ouvidos do habitante do Sudeste e do Sul, mas aqui a gente conhece a figura do cangaceiro como um anti-herói que pende mais pro tipo violento e impiedoso do que o justiceiro que lutou contra o coronelismo. Minha mãe sempre se refere a cangaceiros quando comenta que alguém é encrenqueiro e briguento.

O mineiro José Geraldo Gôuvea, por sua vez, fez um artigo muito bacana sobre os problemas de os sudestinos e os sulistas se apropriarem e deturparem nossos elementos. Se chamam o cyberagreste de homenagem, eu dispenso. Não me sinto representado por robôs humanoides de 2084 fantasiados de cangaceiros, não me sinto representado por escritores e ilustradores achando que meu Nordeste é apenas seca, fome, violência e cangaço... ou melhor: agreste! Já foi complicado a gente se livrar do estigma de retirante que persistiu mais do que o devido; agora me aparecem com mais esta?! Não, eu dispenso.

O Nordeste que eu quero ver representado é o de cada escritor, do cordelista que reconta causos e revive o passado ao romancista que narra a aventura de um grupo de jovens perdidos nas grutas da Chapada Diamantina. Eu quero sentir o mesmo medo que eu sentia ao contemplar a escuridão na fazenda de meus avós. Quero reviver as lembranças da água salobra de Utinga (BA) lendo um conto sobre uma criança que acha um calango mágico. Não quero estereótipos, eu quero minha região, pedaço por pedaço, escrita por quem a entende e a respeita (algo que a antologia Estranha Bahia teve bastante êxito, ainda em 2015). Quero conhecer nossas lendas, quero conhecer nosso povo (assim como adoraria conhecer de qualquer região desse imenso Brasil)!

É pedir muito? É pedir muito respeito e diversidade? Até quando nós, nordestinos, vamos deixar que as novelas, os filmes e os escritores de ficção duvidosa ditem sobre nossa cultura suas ideias absurdas? Vamos deixar que peguem nossas características e as reinventem e as reinterpretem para seus caprichos? Vamos aceitar que elogiem aquilo que nos ofende?

De minha parte, eu sinto nojo completo do cyberagreste. E lutarei contra sua disseminação.


Um comentário:

  1. Cheguei até aqui por conta do texto de meu amigo e querido Alan de Sá. Cada escrito contra o cyberagreste só reforça o quanto temos algo bem melhor para mostrar.

    Viva nossa região e o Sertãopunk, esse, sim, com cara de Nordeste.

    Grande abraço, Alec. :)

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