Sudestino criando é artista, mas nordestino criando pode não?

Começo este texto respondendo à pergunta que mais se usam contra o movimento anti-cyberagreste: não, meus queridos, não estamos dizendo que um mineiro, paulista, carioca, matogrossense e por aí não pode escrever histórias situadas no Nordeste. A questão não é esta, e vocês deveriam saber e entender, uma vez que muitos de vocês entendem o conceito de local de fala (um termo qu evito empregar).

O que estamos (Alan de Sá, em seu excelente ensaio, José Geraldo, no artigo que complementa o texto anterior, e eu, em meu desabafo) tentando dizer é que estamos cansados de ver sudestinos e sulistas representarem nossa região de maneira estereotipada, ditando regras que nós, nordestinos, devemos seguir se quisermos ser aceitos pelo público. Foi criada uma visão, por décadas, de que o Nordeste é somente seca, miséria, barbárie e atraso, e o movimento cyberagreste leva isso a um nível incômodo, misturando referências cyberpunk retrofuturista com estereótipos acerca do cangaço.


Não pretendo, pois, ficar repetindo as mesmas coisas, uma vez que há material excelente sobre o problema, assim como também já dei minha opinião.

Pode parecer estranho, eu sei, nordestinos se sentindo ofendidos com uma "homenagem" que não pedimos, ainda que outros se sintam agraciados e contentes pelo deslumbramento das artes retrofuturistas. E mais estranho ainda que estejamos invocando lugar de fala enquanto criticamos abertamente o gênero recém-criado. Soa como se proibíssemos qualquer um de meter o bedelho em nossa região, não é? Isso incomoda, não é? Sabemos que sim, pois é o sentimento que muitos sentem quando alguém se apropria e distorce nossa cultura.

Mas deixa eu ser claro: temos todo o direito de reclamar e tomar para nós a iniciativa de explorar nossa cultura na arte, seja visual ou literária. Temos o cordel para nos inspirar. Temos tradições musicais. E sabemos os aspectos que nenhum turista vai compreender, por mais que viaje e ande pelas ruas de Salvador, praças, sertão, etc. Então, sim, temos todo o direito de mostrar como é viver e ser do Nordeste, seja para criticar o cyberagreste, seja para criar um gênero que abrace mais respeitosamente a imensidão da região.

Não vamos proibir ninguém de ambientar suas histórias em qualquer um dos estados nordestinos. Aliás, queremos que façam mais isso, contudo que pesquisem muito antes, conversem com gente que mora na localidade, evitem preconceitos e estereótipos.

Por ora, sim, vamos segurar nosso direito e mostrar a sulistas e sudestinos (e a nordestinos também) uma forma de representar, na literatura fantástica, nosso grandioso Nordeste.

O choro, enfim, é livre e para todas as cidades.

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