"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

Bestiário #8: Azhdaha

Recentemente, através da página História Islâmica, descobri uma criatura mitológica bastante interessante e, como já faz um bom tempo que não veio aqui, trago-a para não deixar o blog tão abandonado. O texto a seguir, além da legenda da imagem, com pequenas alterações para corrigir gramática e incluir itálicos, é da página. Logo abaixo, incluo as fontes consultadas pelo autor da postagem.

Detalhe de um tapete mogol no qual a figura de um azhdaha aparece bordado em dourado, uma miniatura persa de por volta de 1560 do clássico Bahmannama na qual o herói Azar Barzin aparece matando um azhdaha com seu arco, e a figura do azhdaha em uma taça mogol de jade ricamente trabalhada de entre os séculos XVI-XVII.

Na mitologia medieval persa, os azhdaha eram o equivalente da figura do dragão europeu, e povoavam os contos de bravura e heroísmo como nos clássicos Shahnameh e Garshaspnameh, onde eram antagonistas, porém muito admiradas como incríveis bestas fantásticas. Segundo a tradição dos contos islamo-persas, os azhdaha possuíam um corpo enorme e alongado de modo serpentino, com uma face que expressava ferocidade coroada por olhos brilhantes, com bocas largas e repletas de dentes, sendo muito próximos da figura do dragão chinês tanto nas descrições escritas como nas representações artísticas, podendo habitar terra, céu e principalmente água.

De acordo com o bestiário de criaturas fantásticas Ajāyeb ul-Makhlooghāt, ou Criaturas Estranhas, de autoria de Mahmoud al-Tusi, compilado por volta de 1160, a origem dos azhdhas se dava "quando uma cobra vive 100 anos e seu comprimento se torna o de 30 metros, ela é chamada de azhdahā". Ele também escreveu que "por causa de seu ataque a outras criaturas, Allah eventualmente as manda ao mar e lá, seu corpo continuará a crescer, de modo que seu comprimento se torne o de mais de 10.000 metros. Então, no mar, elas evoluem para ter duas asas/nadadeiras, como as de um peixe, e as ondas do mar são causadas por seus movimentos. Comer o coração de um azhdahā traz coragem e bravura. Suas peles são boas para curar as feridas do amor, e se alguém enterrar a cabeça de uma azhdahā no solo, as condições desse solo se tornarão férteis.''

Outro trabalho medieval posterior ao de al-Tusi, que dá descrições parecidas sobre a criatura, é o de Hamd Allah Mustaufi Qazvini, intítulado Nuzhat al-Quloob. Nele, Qazvini acrescenta que "eventualmente, o azhdaha cresceu tanto que causou danos no mar e, depois de ser morto, seu corpo foi jogado na costa para fornecer alimento para os habitantes da Terra de Gog e Magog.''

A figura dos azhdaha aparece não só em contos e livros, como também foi reproduzida em diversos trabalhos de arte do mundo islâmico persianizado. A besta foi adotada por exemplo pelo conquistador tártaro-mongol Timur (m.1405) durante sua conquista da Pérsia, e assimilada como uma insígnia real pela sua dinastia, bem como pela dinastia Mogol que a sucedeu em parte da Ásia Central e principalmente na Índia. Shah Jahan (m.1666), o construtor do Taj Mahal, também aparece cercado de várias representações dos azhdaha em seus estandartes, e seu sucessor, Aurangzeb Alamgir (m.1707) nomeou um de seus canhões favoritos de Azdaha Paikar (''Corpo do Dragão'), que foi usado durante suas conquistas no Decão, famoso por derrubar muralhas tal qual as bestas dos contos persas. 


Bibliografia:

Enciclopédia Iranica (em inglês)

- Titley, Norah M. (1981). Dragons in Persian, Mughal and Turkish Art. London: The British Library. p. 16.

-Kajani Hesari, Hojjat. Mythical creatures in Shahnameh.


Resenha #16: Domínio das Trevas - Contos do Gótico e do Inimaginável [Rubens Pereira Junior]

Na verdade, eu queria começar esta resenha com uma piada, mas difícil superar o e-book que eu acabei de ler.

Não que Domínio das Trevas: Contos do Gótico e do Inimaginável seja lá daquelas piadas bem contadas. Imagine um tiozão no churrasco contando piada politicamente incorreta, mas que nem é engraçada e mal vai ofender alguém; no máximo, todo mundo vai achar o tiozão um otário e ficaremos por isso mesmo. Só que Rubens Pereira Junior consegue a proeza de quando não nos faz sentir uma baita vergonha alheia de seus oito péssimos contos, causa aquele incômodo escatológico de uma criança mal-criada.

Pois não há outra forma de descrever a sensação que fica na leitura das oito histórias deste livro.

É até difícil imaginar o que a Editora AVEC viu na prosa do autor para achar que valeria sujar seu catálogo com tamanho catarro. Pois é assim que vejo cada conto "gótico" da obra: uma tentativa de um garoto que leu bastante de copiar/imitar seus escritores preferidos. Em momento algum há tanta originalidade ou segurança no que é posto no papel; Rubens apenas segue oscilando por parágrafos, parecendo tentar emular um estilo ou outro que não domina.

Ou vai ver ele só não sabe escrever.

Falta a Rubens um quê de criatividade e outro de paciência. Não se cria um vilarejo no interior de Minas Gerais do dia para a noite; não se situa uma série de contos em ambientes da década de 1930 sem a menor pesquisa; é preciso se saber onde ir e para onde não ir. Sem a centelha da criatividade, por exemplo, Vale Escuro não tem nada que lembre um pedacinho de Minas (nem costumes, nem nomes de personagens, nem estrutura, nem crendices); vai ser só uma cópia daquelas vilas de filmes e novelas ambientadas no fiofó da Europa. E sem paciência, a todo instante a cidade vai mudando, vai se enchendo de classes abastardas, até mesmo "realeza", que preferiram um lugar sem eletricidade, cuja economia deve ser basear nas vendas das velas, do que uma cidade grande.

Mas Rubens não parece preocupado em amadurecer, distraído com seu vilarejo nonsense, enquanto desfilam personagens e tramas vazias de sentido e propósito, que vão somente testando nossa paciência e causando um tédio sem fim. Quando não cabe capacidade de causar medo com suas descrições toscas, o autor nos surpreende com escolhas toscas e duvidosas: o gore mal executado, o sacrifício de uma bebê aqui, um estupro com diabão com "falo desejoso" logo acolá, canibalismo sem graça mais adiante, um capeta/menino alegando que gostou de ser abusado já na curva do desfecho...

Falta ao autor, crítico do politicamente correto (o qual ele acusa de censurar sua obra), identificar os elementos daquilo que tanto aprecia. Entender que os clássicos que ele admite serem suas inspirações não costumam ser feitos de recursos narrativos baratos e cafonas, que os personagens são tão importantes quanto a ambientação, que o psicológico de um personagem se constrói em ritmo gradativo... e que o gore pode, sim, existir, mas que ele seja um desses elementos, não o atrativo. Que uma mera sugestão pode causar uma sensação de horror maior do que descrever um estupro.

E, acima de tudo, repito, aprender a escrever.

É preciso paciência e criatividade, é essencial treino e boas referências, e é fundamental reconhecer suas limitações e ouvir conselhos. Ainda mais quando, em longos e tediosos contos, o leitor nem saiba mais o que está lendo e nem o motivo. Afinal, não é complicado prever o próximo evento de cada história, e não tem enrolação que salve o clímax, que é tão ridículo quanto tudo o que veio antes. O risível se faz tão presente que, no oitavo conto, nem é espantoso o desfile de quase todos os personagens que apareceram anteriormente, numa trama sem sal de casa mal-assombrada.

Como disse, eu queria fazer piada nesta resenha, igual fiz no Twitter conforme fui lendo cada conto. Mas não dá. O alvoroço em cima deste livro e de seu autor, dias atrás, beira o patético. A imaturidade de Rubens, ao lidar com críticas, preferindo se sentir perseguido pelo fantasma do politicamente correto, outros escritores correndo para defendê-lo e até mesmo leitores atacando o papel essencial de uma leitura acurada, que busque qualidade e sensibilidade e temas pesados, tudo isso me fez perceber que não há piada na mediocridade de Rubens e sua obra. A piada sou eu, ou você, nós, que buscamos escrever bem diariamente, enquanto um garoto catarrento, sabe-se lá como, conseguiu uma editora com um material amadoríssimo e, ainda por cima, apoio de grandes escritores do gênero.

No fim, Domínio das Trevas: Contos do Gótico e do Inimaginável não merece sequer uma nota, nem a .



PseudoCrítica #9: Coisas que fãs de dinossauros deveriam assistir

Quem acompanha o blog e já percorreu as mais de mil postagens (até o momento), com certeza, já deve ter reparado que eu adoro dinossauros, não é mesmo?

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Se você, assim como eu, ama dinossauros, já deve ter visto um monte de filmes, séries e desenhos animados com essas criaturas fascinantes. Não é de se admirar que tenha esbarrado em clássicos mundialmente conhecidos (a franquia Jurassic Park, por exemplo) e encontrado películas de gosto bastante questionável (a franquia Carnosaur, que é composta de três filmes deveras trash).

Mas, se você quer novidades e explorar diferentes histórias, deixe-me sugerir algumas obras que valem (ao menos um pouco de) seu tempo.

PRIMAL2019

Primal, série animada com uma temporada apenas até o momento, é de encher os olhos de qualquer um. Criado e dirigido por Genndy Tartakovsky, que possui um extenso currículo com animações de vários tipos, o show bebe de puta literatura pulp (em especial a de Robert E. Howard, criador de Conan), mesclando um mundo anacrônico, onde dinossauros e homens coexistem com homens-macacos e animais gigantes, com um toque de magia primitiva e brutal. Com apenas 5 episódios, de mais ou menos vinte minutos, é uma boa pedida para os adultos apaixonados por aventura, violência gráfica e uma bela amizade improvável.


PRIMEVAL (Invasores Primitivos), 2011 - 2016

Ainda no campo das séries, esta é um pouco maior, com cinco temporadas e 36 episódios. Infelizmente, acabou cancelada, deixando muitas perguntas sem respostas e diversos personagens perdidos nas lacunas do tempo. Mas, enquanto a série britânica durou, trouxe dezenas de dinossauros, animais pré-históricos e do futuro para as ruas da Londres do século XXI, com efeitos especiais bastante convincentes e bastante variedade de espécies. Apesar de ter sido cancelada sem um final adequado, é uma série que vale muito a pena ser conferida. Há uma spin-off, canadense, que ainda não vi, mas pretendo.


THE LOST WORLD (O Mundo Perdido), 1999 - 2002

Esta é meu xodó. Eu era fissurado nela, tentava não perder um episódio e devo ter assistido, de maneira irregular, praticamente todos os 66 episódios + piloto + filme para televisão disso. Infelizmente, também foi cancelada sem uma conclusão (o projeto era ter cinco temporadas, mas pararam na terceira, por falta de verba), mas ainda assim é bastante divertida, com viagens no tempo, civilizações perdidas (inclusive de homens-lagartos), dinossauros (pouca variedade, por sinal), homens-macacos, ficção científica, magia, lendas europeias, referências históricas... Uma salada de sabores! Para quem tiver interesse, o livro homônimo, escrito por Sir Arthur Conan Doyle, também criador do famosíssimo Sherlock Holmes.


WALKING WITH DINOSAURS (Caminhando com Dinossauros - O filme), 2013

Deixando um pouco de lado a temática mais adulta, este filme animado é bem legal. Derivado de um documentário com o mesmo nome, trata-se de uma aventura pre-histórica feita em computação gráfica que mescla ficção e um tom documental, numa dose bastante satisfatória para adultos e crianças (principalmente; meus sobrinhos adoram este filme). Eu considero bem superior ao filme da Disney, Dinossauro, que não irei incluir nesta lista, mas fica a dica também.


THE VELOCIPASTOR (O VelociPastor), 2018/2019

Agora, se você não quer animação caprichada e violento, séries canceladas sobre mundos perdidos e brechas temporais e muito menos filme bonitinho com dinossauros coloridos, que tal algo bem trash e tão ridículo que é digno de culto? VelociPastor é a pedida! Nem vou falar muito, mas fica aí a dica. É um baita filme!


Como usar travessão no Microsoft Word

"Alec, por favor, faz uma postagem sobre travessões serem diferentes de meia-risca e de símbolos... e de equações!", pediu-me uma amiga e colega de escrita.

Olha, se alguém se diz escritor e não sabe a diferença dessas coisas, acho que deveria repensar um pouco os compromissos com a escrita.


Dito isso, hoje vamos aprender a usar corretamente travessão no Microsoft Word, seja lá qual for a versão.

Basta seguir as orientações das imagens a seguir:

1.


2.


3.

Este é um caminho mais rápido, mas preste atenção, hein?
Atente-se ao nome Unicode do símbolo!
Outro caminho é este. Acho mais seguro, além de permitir conhecer melhor as sutis diferenças dos símbolos.

4.

Por fim, salve tudo, feche as janelinhas abertas e está tudo pronto. Toda vez que digitar -- o programa vai substituir pelo —.

54 contos num ano: Um conto por semana 2.0

Em 2017, eu havia dado início a um projeto simples: escrever, por um ano, um conto toda semana. Cheguei a cumprir um mês de desafio, embora só tenha registrado três semanas inteiras. Com o decorrer do tempo, outras coisa surgiram e o projeto foi paralisado.

Mas, como estamos numa época de quarentena, resolvi voltar e tentar cumprir as 54 semanas e 54 contos.


O desafio é fácil: de domingo a sábado, escrever um conto completo, de qualquer tamanho, livre de tema e de gênero literário. Pode ser uma meta diária de 100 a 1000 palavras, por exemplo. Pode-se acabar o conto antes do prazo. Importante é escrever uma história semanalmente.

Ao final de um ano, contabilizar e classificar tudo.

Simples, náo é?

Criei uma planilha para manter tudo controlado, assim tentarei não perder prazos e preservarei um registro do progresso. O modelo segue abaixo, caso alguém queira copiar ou adaptar.


Trailers Fantásticos #16: Assassin’s Creed Valhalla [2020]

Para quem é fã da franquia Assassin's Creed, curte a série Vikings e pirou na recente aventura de Kratos, Valhalla está chegando!


Segundo a página Nerd Maldito, "Assassin’s Creed Valhalla, o próximo jogo da série Assassin's Creed. Ambientado na Era Viking, o game será lançado no final do ano para Xbox Series X, PlayStation 5, Xbox One, PlayStation 4, Windows PC, Stadia e UPLAY+, o serviço de assinatura da Ubisoft.

"Desenvolvido pelo mesmo time responsável por Assassin's Creed Black Flag e Assassin's Creed Origins, na Ubisoft Montreal, Assassin's Creed Valhalla convida os jogadores a viverem a saga de Eivor, um feroz guerreiro viking criado em um ambiente cercado de lendas sobre batalhas e glórias. O novo game oferece uma experiência viking arrebatadora e transporta os jogadores para um dinâmico e belo mapa de mundo aberto que contrasta com o cenário brutal da Idade das Trevas na Inglaterra. Para ganhar seu lugar entre os deuses em Valhalla, os jogadores precisarão saber usar novos recursos e habilidades, realizando invasões, aumentando seus assentamentos e demonstrando poder e influência.

"'Mal podemos esperar até que os jogadores vivenciem essa incrível jornada viking”, disse Ashraf Ismail, diretor criativo de Assassin’s Valhalla. "Na pele de Eivor, um invasor viking e líder de clã, os jogadores enfrentarão grandes desafios para estabelecerem um novo lar enquanto lutam pelo poder e controle da Inglaterra." Em Assassin’s Creed Valhalla será possível escolher entre jogar como um Eivor masculino ou feminino, e usar ferramentas de customização, incluindo cabelo, tatuagens, roupas, pinturas de guerra e equipamentos. Alianças políticas, decisões de combate e opções de diálogo vão impactar a trajetória dos jogadores em Assassin's Creed Valhalla, e, por isso, será fundamental estabelecer estratégias para proteger o lar e o futuro de seu clã.

"Partindo da Noruega, por meio de guerras infinitas e com recursos cada vez mais escassos durante o século IX d.C., os jogadores conduzirão o clã nórdico de Eivor através do gelado Mar do Norte até as ricas terras dos reinos controlados pela Inglaterra. Será preciso estabelecer um novo destino para seu clã, batalhando ao implacável estilo de luta dos guerreiros vikings, apresentados no jogo a partir de um sistema de combate renovado, que inclui a capacidade de manejar duas armas ao mesmo tempo, e enfrentar a maior variedade de inimigos já vista na série. Com poucos recursos à disposição, os jogadores irão liderar ataques a qualquer local promissor que encontrarem no litoral utilizando seus barcos e adquirindo riquezas. Conforme os vikings se estabelecem em novos lugares, encontram a resistência dos saxões, como o rei Aelfred de Wessex. Contra todas as probabilidades, Eivor deve fazer o que for necessário para manter Valhalla ao seu alcance."



Caso vocês não seja fluente no idioma inglês, segue o trailer dublado:



Sobre a tal maturidade literária


A maturidade literária chega para todos, em diferentes níveis.

E não me refiro a algo específico, uma vez que, no meu caso, alcancei uma boa escrita (aos meus olhos) apenas após 6 anos de escrita quase ininterrupta em diversos cadernos e folhas sulfite; aprendi a respeitar o gosto alheio por leitura somente há pouco mais de cinco anos; e me permiti ler obras que jamais imaginei ler.

A maturidade reside em se olhar para os problemas e não se julgar capaz de solucioná-los ao seu modo, e sim buscar, com outras pessoas, soluções em cima de diversos pontos de vista.

Você passa a enxergar com o olho do outro, ciente de que todos temos limitações e pontos fortes.

Eu, por exemplo, não consigo prolongar nenhum texto para que tenha mais de 40 mil palavras há uns bons anos, contudo me saio bem com um espaço limitado de 2 mil caracteres. Assim como tem gente que se empolga e cria uma trilogia extensa e concisa, bem construída, mas se perde na elaboração de uma mera sinopse.

Os anos de tretas literárias me serviram para que eu conhecesse diversas realidades, saísse inúmeras vezes de meu confortável ambiente de leitor de literatura fantástica e percebesse minhas falhas, assim como as alheias. Há um peso na vivência que está além da zona de conforto, além de querer estar certo ou se achar certo. Pois um escritor, uma vez li em algum lugar, é como um historador de seu tempo, contudo ele imprime em seus textos todas as suas opiniões.

Há uma tendência elitista de nossa parte, seja escritor branco ou negro, hétero ou LGBTQA+, pobre ou classe média, em julgarmos senhores de verdades absolutas sobre assuntos diversos. Não nego que um escritor negro conhece mais sobre racismo do que um branco, mas que conhecimento tem um negro de classe média, que estudou a vida inteira em escolas e colégios particulares, perto de um que dividia seu tempo entre estudar numa escola pública e ajudar na renda familiar?

Indo além, e me usando de novo como exemplo, eu evito dar dicas de escrita justamente porque reconheço, em uma longa linha de milhares de anos, não ser mais do que um mero grão de areia num deserto de literatura. Pois, creio eu, minha maturidade está em saber quem sou e onde estou, e não ambicionar estar além daquilo que posso oferecer.

E há uma pegadinha interessante na tal maturidade literária: um dia, eu abri os olhos e notei que não bastava apenas criticar o mercado e me recusar a fazer parte dele. Eu precisava apontar caminhos, elevar quem estivesse ao meu redor e pudesse fazer a diferença. É sábio que um general busca a vitória sem causar perdas a ambos os exércitos. E a destruição é uma forma de se criar.

Maturidade literária é oferecer o que se tem, mas sem nunca se proclamar mestre. É saber que suas palavras, ditas ou escritas, e suas ações, feitas ou não, ecoam pela eternidade. E tem severas consequências.



"ACID+NEON 2.0" está chegando!


ACID+NEON 2.0 é uma antologia colaborativa multimidiática inspirada no cyberpunk. Para essa nova edição, amplia seus horizontes explorando ainda mais o Futuro Próximo, amarrado a intrigas de escala nacional e global, com pitadas de romance, aventura, horror, o bom e velho noir e um toque gótico e clássico do cyberpunk, nos formatos conto, trilha sonora, arte digital e boardgame.

O lançamento da versão digital (disponibilizada gratuitamente) será no dia 01 de março e a campanha para o Financiamento Coletivo da versão física inicia na metade de março! Siga os canais do @studiocoverge para não perder nada!


Participo deste projeto com o conto Somos a resistência, que se passa em alguma favela brasileira, num ano incerto. Quando inicia-se uma política de segregação entre a grande cidade e a favela, isolando pobres por meio de uma muralha, a revolta popular provoca graves consequências tanto para os moradores isolados quanto para o resto da humanidade.

Inspirada na filmografia de Neill Blomkamp e na franquia O Exterminador do Futuro, é uma história que apresenta a gênese de eventos futuros perigosos ao mundo.


Arte do Dia #662


Com a palavra, a artista Mariana Teixeira:

Esse foi meu projeto para o concurso do Topia Art Experience 2020 | Curitiba. Eu fiquei muito insegura durante o processo, mas estou feliz por ter tentado! O Elevador Lacerda é baiano como eu. Me inspirando no sertãopunk de Gabriele Diniz (primeira escritora do gênero), Alec Silva e Alan de Sá, busquei pensar o "futuro baiano" por uma ótica não estereotipada, com os olhos de quem compreende a existência das muitas Bahias e suas múltiplas realidades, entendendo que o futurismo é também ferramenta de debate social e socioambiental. A partir deste intento, acabei também sendo inspirada pelas imagens que Jorge Amado constrói de Salvador na primeira fase de sua literatura, mais especificamente no seu romance de 1937: Capitães da areia, em que traz à tona a visão propositalmente binária de Salvador, a cidade alta das elites e a cidade baixa dos pobres como metáfora para a segregação social. Assim, e utilizando a estética retrofuturista, conceituei um futuro onde a dicotomia prevalece, evidenciando o caráter desigual da estratificação social existente na cidade de Salvador. Aqui, se por um lado a cidade alta é turística, dos coronéis e políticos, a cidade baixa é desassistencializada e marginalizada. Por isso e pela negligência do poder político no tratamento dos recursos naturais que perdura há anos, (vide o tamponamento de rios e o desmatamento desenfreado das matas ciliares, gerando enormes alagamentos na cidade) todo planejamento urbano, a arquitetura e a configuração espacial desta Salvador do futuro conta uma história de luta de classes.

“Robison é um garoto de 17 anos que vive com sua família na cidade baixa de Salvador. Nascido e criado na praia, sempre foi bom nadador. Quando inesperadamente o nível do mar se eleva e chuvas cada vez mais devastadoras atingem a cidade, ele reúne seus pertences e se junta aos que restaram nos destroços do mercado modelo enquanto esperam o visto para acessar a cidade alta e assim recomeçarem suas vidas. Os meses se passam e o abrigo se expande. Entretanto, nessa espera, o seu avô adoece e seus remédios só se encontram agora do outro lado do elevador -- no qual seu avô havia trabalhado como maquinarista quando jovem e ao qual o acesso agora é restrito. Pegando às escondidas o esquema antigo do monumento, Robison nada até o elevador e se infiltra na cidade alta pelas engrenagens, quando é forçado a desviar seu caminho do posto médico para se esconder no Palácio do Rio Branco, atual prefeitura. Lá, o garoto descobre os reais planos do governo: provocar, através do desmatamento e tamponamento de rios ocorrido ao longo das últimas décadas, uma enchente, assim forçando a desocupação nativa das terras de Salvador e então vendê-las para companhias privadas estrangeiras.”

Obras lançadas em 2019 - Parte 1: Livros e E-books

2019 foi um ano que eu escrevi muita coisa, a maioria para editais de antologias e concursos. Há contos, noveletas e algumas novelas prontos. Tem livros que só sairão no decorrer de 2020.

Então, para fazer aquele merchan pouco efetivo e deixar registrado o que foi produzido, seguem os títulos autorais e em cooperação que saíram ano passado:

A JORNADA PARA ENCONTRAR A FELICIDADE DA MAMÃE


Novela infantil que quase saiu no finalzinho de 2018, mas que em 2019 ganhou alguns corações de leitores. Publicada inicialmente em edição impressa, A Jornada para Encontrar a Felicidade da Mamãe atualmente se encontra na Amazon, em formato digital.

SINOPSE: Rube sempre foi considerada uma menina especial. Ao se tornar amiga de um ratinho bilíngue, Radolfo, um Guardião de Letras, ela aprende que os livros escondem uma magia poderosa, personagens que literalmente saltam das páginas e interagem com ela.
E mais do que isso: Sr. Coelho, seu bichinho de pelúcia, é também seu protetor, afastando estranhas criaturinhas que podem lhe dar terríveis pesadelos.
Quando a mãe de Rube perde a felicidade que deveria ter direito, a menina parte para dentro dos livros, numa jornada ao lado de Radolfo e Sr. Coelho, inicialmente seguindo o Coelho Branco, sempre com pressa e ainda constantemente atrasado, para encontrar alguém que possa devolver a felicidade perdida.
Passando pelas fábulas, trechos da primeira versão de As aventuras de Alice no subterrâneo e num belo momento do clássico O pequeno príncipe, a novela infantil A Jornada para Encontrar a Felicidade da Mamãe é uma fantástica aventura de imaginação e emoções sobre a beleza que apenas as páginas dos livros podem proporcionar.
NÚMERO DE PÁGINAS: 155 (digital)
ONDE COMPRAR: Amazon
QUANTO: R$ 2,99

A RAPOSA E A CEREJEIRA


Uma fábula sobre o amor e os cuidados para com ele. Foi um dos primeiros textos que escrevi em 2019, ficando como e-book exclusivo para a Amazon.

SINOPSE: Após ganhar uma pequena cereja, uma raposa, aconselhada por um jabuti, planta sua semente perto da toca, dando início a uma fábula sobre diferenças, amor e descaso.
NÚMERO DE PÁGINAS: 12
ONDE COMPRAR: Amazon
QUANTO: R$ 1,99

COELHOS SONHAM COM OVOS DE CHOCOLATE?


Mais um conto infantil de Rube, agora num clima de Páscoa. É um texto que iniciei anos atrás, mas somente ano passado terminei.

SINOPSE: Curiosa sobre a possibilidade dos coelhos sonharem, Rube um dia se perguntou se seus sonhos seriam com ovos de chocolate. Em busca da resposta, ela vai descobrir algo muito mais importante, uma lição que pode trazer pequenos segredos e grandes revelaç
NÚMERO DE PÁGINAS: 15
ONDE COMPRAR: Amazon
QUANTO: R$ 1,99

O CÃO NEGRO


O Cão Negro é uma novela fix-up que foi conquistando leitores... até chegar na Cartola Editora, que a publicou e a lançou na Horror Expo do ano passado. Com o acréscimo de três novos contos, foi meu segundo livro solo a aparecer em 2019. E ainda ganhou mais um brinde: segundo a Biblioteca do Terror, que anteriormente havia eleito como uma das melhores leituras de 2018, a novela alcançou a 17ª posição no ranking dos 60 melhores livros brasileiros de terror da década!

SINOPSE: Quando, em 1767, uma jovem camponesa é torturada e morta sob acusação de bruxaria, um espírito vingativo de um cão de pelos negros surge, vagando pelo mundo, através dos séculos, destruindo vidas e enlouquecendo quem cruza seu caminho.
Após gerações de vingança, mortes e loucuras, o Cão Negro se aproxima do ápice de seu complexo plano de justiça quando, em pleno século XXI, um caso surpreendente de licantropia amedronta algumas cidades do Brasil, obrigando a jovem e ambiciosa investigadora Paula a tentar desvendar os assassinatos. Logo, ela descobre haver uma forte ligação nos ataques e no aparecimento de Marcos, um homem misterioso que guarda consigo segredos perigosos e sombrios. Investigando o caso a fundo, recolhendo relatos e montando o quebra-cabeça mortal, a detetive verá sua vida envolvida por uma entidade sobrenatural capaz de grandes coisas quando determinada a cumprir sua vontade.
Será Marcos a criatura misteriosa e cruel chamada de Lobo? Qual a forte ligação entre ele, Paula e o Cão Negro? Por que ora o Cão surge como um demônio impiedoso, capaz de feitos macabros, e ora como um guardião, capaz de gestos bondosos? Quais as consequências dos acontecimentos horrendos e inexplicáveis que rondam a todos?
Parte dos mistérios está nos contos que compõem O Cão Negro, uma novela fix-up cheia de horror, suspense e adrenalina. Mas, cuidado, pois o Cão pode surgir e clamar por sua alma como parte de sua insaciável vingança!
NÚMERO DE PÁGINAS: 110
ONDE COMPRAR: Amazon (físico) * Loja da Cartola (físico) * Amazon (e-book)
QUANTO: R$ 39,99 (físico) * R$ 9,99 (e-book)

A LIVUSIA


Novela de terror com elementos nordestinos. É uma história objetiva, violenta e com toques de erotismo. Escrita a quatro mãos, em parceria com a Bruny Guedes, venceu um concurso da Constelação Editorial e foi lançada já no final de 2019.

SINOPSE: Nunca fez muita questão de se dar um nome. Se não se lembrava nem disso, era porque não era importante ter. Contentava-se com o vocabulário que os sertanejos dispunham quando ela os assombrava à beira de estradas ou se instalava temporariamente numa residência, uma casinha abandonada ou habitada por alguma miserável família. Gostava de ser chamada de livusia, embora fosse um fantasma de poucos ruídos, de modestos sustos.
A criatura sabia qual seria a reação de Maria quando recebesse a ligação avisando sobre a brutal morte do pai. A primeira sensação de sua humana preferida seria um calafrio percorrendo toda a espinha, seguido do pavor de ter que retornar à fazenda que jurou nunca mais botar os pés. A livusia, assombração traiçoeira que perseguia sua família há gerações, estaria lá, lhe esperando.
Mas Maria nem podia imaginar que outros horrores vingativos e perigosos a esperavam naquelas vastas terras.
A Livusia é uma história arrepiante e visceral, recheada de sangue e erotismo, sobre o legado familiar mais cruel já deixado em terras nordestinas.
NÚMERO DE PÁGINAS: 80 (físico)
ONDE COMPRAR: Loja da Constelação (físico) * Amazon (e-book)
QUANTO: R$ 19,90 (físico) * R$ 4,99 (e-book)

Arte do Dia #661

Faz bastante tempo que não posto ilustrações e desenhos por aqui, não é mesmo?

E retorno justamente para prestar homenagem à artista Qinni, que já apareceu por aqui logo nas primeiras postagens da série, e nos deixou tão jovem, mas sem nunca parar de fazer aquilo que amava: criar arte.

Que sua arte, portanto, seja sempre lembrada. E que ela continue a colorir o universo, onde estiver, com sua criatividade e paixão por estrelas e aquarelas.