Arte do Dia #662


Com a palavra, a artista Mariana Teixeira:

Esse foi meu projeto para o concurso do Topia Art Experience 2020 | Curitiba. Eu fiquei muito insegura durante o processo, mas estou feliz por ter tentado! O Elevador Lacerda é baiano como eu. Me inspirando no sertãopunk de Gabriele Diniz (primeira escritora do gênero), Alec Silva e Alan de Sá, busquei pensar o "futuro baiano" por uma ótica não estereotipada, com os olhos de quem compreende a existência das muitas Bahias e suas múltiplas realidades, entendendo que o futurismo é também ferramenta de debate social e socioambiental. A partir deste intento, acabei também sendo inspirada pelas imagens que Jorge Amado constrói de Salvador na primeira fase de sua literatura, mais especificamente no seu romance de 1937: Capitães da areia, em que traz à tona a visão propositalmente binária de Salvador, a cidade alta das elites e a cidade baixa dos pobres como metáfora para a segregação social. Assim, e utilizando a estética retrofuturista, conceituei um futuro onde a dicotomia prevalece, evidenciando o caráter desigual da estratificação social existente na cidade de Salvador. Aqui, se por um lado a cidade alta é turística, dos coronéis e políticos, a cidade baixa é desassistencializada e marginalizada. Por isso e pela negligência do poder político no tratamento dos recursos naturais que perdura há anos, (vide o tamponamento de rios e o desmatamento desenfreado das matas ciliares, gerando enormes alagamentos na cidade) todo planejamento urbano, a arquitetura e a configuração espacial desta Salvador do futuro conta uma história de luta de classes.

“Robison é um garoto de 17 anos que vive com sua família na cidade baixa de Salvador. Nascido e criado na praia, sempre foi bom nadador. Quando inesperadamente o nível do mar se eleva e chuvas cada vez mais devastadoras atingem a cidade, ele reúne seus pertences e se junta aos que restaram nos destroços do mercado modelo enquanto esperam o visto para acessar a cidade alta e assim recomeçarem suas vidas. Os meses se passam e o abrigo se expande. Entretanto, nessa espera, o seu avô adoece e seus remédios só se encontram agora do outro lado do elevador -- no qual seu avô havia trabalhado como maquinarista quando jovem e ao qual o acesso agora é restrito. Pegando às escondidas o esquema antigo do monumento, Robison nada até o elevador e se infiltra na cidade alta pelas engrenagens, quando é forçado a desviar seu caminho do posto médico para se esconder no Palácio do Rio Branco, atual prefeitura. Lá, o garoto descobre os reais planos do governo: provocar, através do desmatamento e tamponamento de rios ocorrido ao longo das últimas décadas, uma enchente, assim forçando a desocupação nativa das terras de Salvador e então vendê-las para companhias privadas estrangeiras.”

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