De quem é e para quem é o sertãopunk


Se você for daquele tipo de gente que anda há algum tempo pelas redes sociais, já deve ter visto o termo sertãopunk em algum comentário engraçado, num contexto bem similar ao que acabaram empregando no cyberagreste. Recordo de ter visto, há muito tempo, alguém falando que o sertãopunk seria o gênero da seca e da miséria, da luta pela água. Eu sempre me incomodei com essa visão, sabe? Porque eu já estive no sertão baiano, já estive no cerrado, já estive na caatinga, já estive em vilas e em cidades, já vi alagamentos e enchentes de rios e já sofri pela escassez de água e com a fome. São elementos que estão presentes, sim, no Nordeste, mas é apenas isso?

Então, quando Alan e Gabriele se uniram a mim na criação de um movimento literário nordestino, achei mais do que justo usar o termo, antes prejorativo, para algo bom. Não queríamos um nordestepunk, tinha que ser aquilo que mais julgam haver em nossa região: o sertão.

É uma das primeiras piadas linguísticas e simbólicas de nosso movimento. As pessoas chegam com seus preconceitos, esperando estereótipos e cada artista joga uma visão diferente do Nordeste, de seu Estado, de sua região.

Não existia, portanto, uma obra que conseguisse unir os elementos que escolhemos, que fazem parte da nossa realidade, e entregar possibilidades de visões. Havia, sim, obras que se aproximavam de nosso intuito. Gabriele conhecia Bacurau, eu conhecia as obras de Ariano Suassuna, conhecia Cem anos de solidão, sempre desejei explorar o afrofuturismo num contexto brasileiro, eu queria uma fantasia que falasse de nosso folclore sem soar uma adaptação de tropos estrangeiros... e o Alan tinha um puta conhecimento sobre aspectos religiosos e políticos.

E até o presente momento, para que todos tomem conhecimento, existem duas obras legítimas, filhas do sertãopunkO Sertão Não Virou Mar, que pode ser lida gratuitamente, e Morte Matada, praticamente uma sequência da primeira, ambas escritas pela G.G. Diniz (como a Gabriele assina suas obras).

Qualquer coisa além disso é invencionice, é má interpretação de nossa proposta.

Então, para que não haja mais equívocos, o sertãopunk, como movimento que agora é, pertence ao trio de nordestinos negros que buscam desenvolvê-lo permanentemente. Não somos os donos, não somos os proprietários, somos somente as mentes que lutaram para que o movimento ganhasse algum espaço em meio a um nicho onde o sertanejo ainda é visto como símbolo da força, em contraste ao tipo preguiçoso do litoral.

E é para todos.

Todo escritor nordestino de boa-fé, cansado de ver nosso povo ser estereotipado em filmes e em novelas, que quer falar de sua região sem ouvir piadinhas preconceituosas. O sertãopunk trabalha o amanhã, o futuro, bebendo da ficção científica, mas há espaço para o horror e para a fantasia.

E é um movimento que desafio o artista também: se aqui estão as possibilidades de futuro, quais as possibilidades de passado e de presente nordestinos você pode nos mostrar?

Por isso, finalmente, o movimento sertãopunk é inclusivo.

Ninguém é acima de ninguém.

Nunca foi nosso objetivo.

0 comentários:

Postar um comentário