Sertãopunk: A treta agora é outra


Comumente, fazem-se listas e postagens nas redes sociais sobre livros e autores negros que precisam ser conhecidos e lidos. O mesmo acontece com mulheres.

Mas quantas vezes ouvimos esses autores negros? Ouvimos essas mulheres?

Novamente falando do sertãopunk, preciso expor que desde o começo foi de meu intuito que a Gabriele Diniz tivesse o protagonismo inicial. A única mulher do trio, coube a ela a missão de dar origem aos primeiros contos legítimos. O primeiro deles, inclusive, foi imensamente divulgado em artigos e matérias.

Gabriele teve sua voz ouvida?

Analisando os resultados recentes, a resposta é não.

Porque Gabriele é mulher negra, e nordestina.

Num novo artigo sobre os gêneros especulativos brasileiros, o sertãopunk foi amplamente apresentado em mais ou menos 40 linhas, das quais apenas 2 mencionam Alec Silva, Alan de Sá e Gabriele Diniz. Nada mais, nada menos. Não se sabe, por exemplo, o que os três criadores propuseram. Sabe-se apenas sobre uma obra que nada tem a ver com o movimento, pois, segundo falaram, os leitores rotularam como sertãopunk.

Três vozes negras e nordestinas não foram capazes de serem mais altas do que uma branca (masculina e nordestina). Chega a ser engraçado, pois o Google, já na primeira página, expôs lá nossos nomes ligados ao termo SERTÃOPUNK.

A gente foi reclamar.

Resultado: pessoas nos criticando, afinal fomos citados, cara! Isso é mais do que o suficiente, não é?

Lógico que não!

E aceitar que outras pessoas, que não contribuíram com o movimento, falem por nós é aceitar que perdemos nossa luta de acabar com o roubo do protagonismo. Aceitar que uma obra que não tem nenhuma relação conosco ganhe espaço em cima de nossos esforços, meus caros, é ignorar que Gabriele escreveu dois contos para um cenário distópico nordestino logo nos primórdios.

Vocês falam de valorizar escritores nacionais, mas se importam com a literatura feita por gente branca e do eixo Sul-Sudeste.

Vocês falam que devemos ler autores negros, mas isso somente no mês da consciência negra, pois na primeira oportunidade vão se apropriar do que a gente criar.

Vocês enchem o peito para falar que se deve ler mais autoras, contudo silenciam a primeira que se mostrar liderando um movimento.

E irão sempre achar justificativas para suas falhas, seus atos. Vão negar racismo, vão negar machismo, vão negar xenofobia. Vão se agarrar naquela migalha que caridosamente se lança aos que servem de apoio para seus pés.

Mas saibam de uma coisa: o movimento sertãopunk é de resistência, e a gente não vai se calar.

Vamos gritar tanto e tanto, meus caros, que seus tímpanos vão doer e sangrar.

É nossa literatura! É nossa arte! A gente quer dividir com quem estiver disposto a nos ouvir e nos ler.

Mas, pelos nossos ancestrais, nossa arte não será roubada de nós.

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