"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

Resenha #16: Domínio das Trevas - Contos do Gótico e do Inimaginável [Rubens Pereira Junior]

Na verdade, eu queria começar esta resenha com uma piada, mas difícil superar o e-book que eu acabei de ler.

Não que Domínio das Trevas: Contos do Gótico e do Inimaginável seja lá daquelas piadas bem contadas. Imagine um tiozão no churrasco contando piada politicamente incorreta, mas que nem é engraçada e mal vai ofender alguém; no máximo, todo mundo vai achar o tiozão um otário e ficaremos por isso mesmo. Só que Rubens Pereira Junior consegue a proeza de quando não nos faz sentir uma baita vergonha alheia de seus oito péssimos contos, causa aquele incômodo escatológico de uma criança mal-criada.

Pois não há outra forma de descrever a sensação que fica na leitura das oito histórias deste livro.

É até difícil imaginar o que a Editora AVEC viu na prosa do autor para achar que valeria sujar seu catálogo com tamanho catarro. Pois é assim que vejo cada conto "gótico" da obra: uma tentativa de um garoto que leu bastante de copiar/imitar seus escritores preferidos. Em momento algum há tanta originalidade ou segurança no que é posto no papel; Rubens apenas segue oscilando por parágrafos, parecendo tentar emular um estilo ou outro que não domina.

Ou vai ver ele só não sabe escrever.

Falta a Rubens um quê de criatividade e outro de paciência. Não se cria um vilarejo no interior de Minas Gerais do dia para a noite; não se situa uma série de contos em ambientes da década de 1930 sem a menor pesquisa; é preciso se saber onde ir e para onde não ir. Sem a centelha da criatividade, por exemplo, Vale Escuro não tem nada que lembre um pedacinho de Minas (nem costumes, nem nomes de personagens, nem estrutura, nem crendices); vai ser só uma cópia daquelas vilas de filmes e novelas ambientadas no fiofó da Europa. E sem paciência, a todo instante a cidade vai mudando, vai se enchendo de classes abastardas, até mesmo "realeza", que preferiram um lugar sem eletricidade, cuja economia deve ser basear nas vendas das velas, do que uma cidade grande.

Mas Rubens não parece preocupado em amadurecer, distraído com seu vilarejo nonsense, enquanto desfilam personagens e tramas vazias de sentido e propósito, que vão somente testando nossa paciência e causando um tédio sem fim. Quando não cabe capacidade de causar medo com suas descrições toscas, o autor nos surpreende com escolhas toscas e duvidosas: o gore mal executado, o sacrifício de uma bebê aqui, um estupro com diabão com "falo desejoso" logo acolá, canibalismo sem graça mais adiante, um capeta/menino alegando que gostou de ser abusado já na curva do desfecho...

Falta ao autor, crítico do politicamente correto (o qual ele acusa de censurar sua obra), identificar os elementos daquilo que tanto aprecia. Entender que os clássicos que ele admite serem suas inspirações não costumam ser feitos de recursos narrativos baratos e cafonas, que os personagens são tão importantes quanto a ambientação, que o psicológico de um personagem se constrói em ritmo gradativo... e que o gore pode, sim, existir, mas que ele seja um desses elementos, não o atrativo. Que uma mera sugestão pode causar uma sensação de horror maior do que descrever um estupro.

E, acima de tudo, repito, aprender a escrever.

É preciso paciência e criatividade, é essencial treino e boas referências, e é fundamental reconhecer suas limitações e ouvir conselhos. Ainda mais quando, em longos e tediosos contos, o leitor nem saiba mais o que está lendo e nem o motivo. Afinal, não é complicado prever o próximo evento de cada história, e não tem enrolação que salve o clímax, que é tão ridículo quanto tudo o que veio antes. O risível se faz tão presente que, no oitavo conto, nem é espantoso o desfile de quase todos os personagens que apareceram anteriormente, numa trama sem sal de casa mal-assombrada.

Como disse, eu queria fazer piada nesta resenha, igual fiz no Twitter conforme fui lendo cada conto. Mas não dá. O alvoroço em cima deste livro e de seu autor, dias atrás, beira o patético. A imaturidade de Rubens, ao lidar com críticas, preferindo se sentir perseguido pelo fantasma do politicamente correto, outros escritores correndo para defendê-lo e até mesmo leitores atacando o papel essencial de uma leitura acurada, que busque qualidade e sensibilidade e temas pesados, tudo isso me fez perceber que não há piada na mediocridade de Rubens e sua obra. A piada sou eu, ou você, nós, que buscamos escrever bem diariamente, enquanto um garoto catarrento, sabe-se lá como, conseguiu uma editora com um material amadoríssimo e, ainda por cima, apoio de grandes escritores do gênero.

No fim, Domínio das Trevas: Contos do Gótico e do Inimaginável não merece sequer uma nota, nem a .