"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

Bestiário #8: Azhdaha

Recentemente, através da página História Islâmica, descobri uma criatura mitológica bastante interessante e, como já faz um bom tempo que não veio aqui, trago-a para não deixar o blog tão abandonado. O texto a seguir, além da legenda da imagem, com pequenas alterações para corrigir gramática e incluir itálicos, é da página. Logo abaixo, incluo as fontes consultadas pelo autor da postagem.

Detalhe de um tapete mogol no qual a figura de um azhdaha aparece bordado em dourado, uma miniatura persa de por volta de 1560 do clássico Bahmannama na qual o herói Azar Barzin aparece matando um azhdaha com seu arco, e a figura do azhdaha em uma taça mogol de jade ricamente trabalhada de entre os séculos XVI-XVII.

Na mitologia medieval persa, os azhdaha eram o equivalente da figura do dragão europeu, e povoavam os contos de bravura e heroísmo como nos clássicos Shahnameh e Garshaspnameh, onde eram antagonistas, porém muito admiradas como incríveis bestas fantásticas. Segundo a tradição dos contos islamo-persas, os azhdaha possuíam um corpo enorme e alongado de modo serpentino, com uma face que expressava ferocidade coroada por olhos brilhantes, com bocas largas e repletas de dentes, sendo muito próximos da figura do dragão chinês tanto nas descrições escritas como nas representações artísticas, podendo habitar terra, céu e principalmente água.

De acordo com o bestiário de criaturas fantásticas Ajāyeb ul-Makhlooghāt, ou Criaturas Estranhas, de autoria de Mahmoud al-Tusi, compilado por volta de 1160, a origem dos azhdhas se dava "quando uma cobra vive 100 anos e seu comprimento se torna o de 30 metros, ela é chamada de azhdahā". Ele também escreveu que "por causa de seu ataque a outras criaturas, Allah eventualmente as manda ao mar e lá, seu corpo continuará a crescer, de modo que seu comprimento se torne o de mais de 10.000 metros. Então, no mar, elas evoluem para ter duas asas/nadadeiras, como as de um peixe, e as ondas do mar são causadas por seus movimentos. Comer o coração de um azhdahā traz coragem e bravura. Suas peles são boas para curar as feridas do amor, e se alguém enterrar a cabeça de uma azhdahā no solo, as condições desse solo se tornarão férteis.''

Outro trabalho medieval posterior ao de al-Tusi, que dá descrições parecidas sobre a criatura, é o de Hamd Allah Mustaufi Qazvini, intítulado Nuzhat al-Quloob. Nele, Qazvini acrescenta que "eventualmente, o azhdaha cresceu tanto que causou danos no mar e, depois de ser morto, seu corpo foi jogado na costa para fornecer alimento para os habitantes da Terra de Gog e Magog.''

A figura dos azhdaha aparece não só em contos e livros, como também foi reproduzida em diversos trabalhos de arte do mundo islâmico persianizado. A besta foi adotada por exemplo pelo conquistador tártaro-mongol Timur (m.1405) durante sua conquista da Pérsia, e assimilada como uma insígnia real pela sua dinastia, bem como pela dinastia Mogol que a sucedeu em parte da Ásia Central e principalmente na Índia. Shah Jahan (m.1666), o construtor do Taj Mahal, também aparece cercado de várias representações dos azhdaha em seus estandartes, e seu sucessor, Aurangzeb Alamgir (m.1707) nomeou um de seus canhões favoritos de Azdaha Paikar (''Corpo do Dragão'), que foi usado durante suas conquistas no Decão, famoso por derrubar muralhas tal qual as bestas dos contos persas. 


Bibliografia:

Enciclopédia Iranica (em inglês)

- Titley, Norah M. (1981). Dragons in Persian, Mughal and Turkish Art. London: The British Library. p. 16.

-Kajani Hesari, Hojjat. Mythical creatures in Shahnameh.